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4 de janeiro de 2011

Um pulo no Quintal

    Para dar o pontapé inicial a esse blog, tinha mesmo que escrever sobre o fechamento do Quintal Gastronomia. Porque um dos meus objetivos aqui é compartilhar e, nesse caso, compartilhar uma experiência que deu errado. E o erro é uma oportunidade de aprendizado - para mim, para quem esteve lá, para quem lê essas linhas.
Uma empresa é uma entidade abstrata. Ela nasce e começa seu desenvolvimento, e tudo é desafio. E desafios são dolorosos. Doem como dar uma martelada num dedo. Ou mais. Mas dói ainda mais a falta de esperança na empresa ou no caminho que se decidiu seguir. Somos seres sensíveis. Mas também somos seres racionais. Ser racional em momentos de escuridão é fundamental para enfrentar obstáculos. O futuro sempre é incontrolável, e às vezes ceder significa ser racional.
Temos um nível de exigência absurdo em relação à vida, não é mesmo?
A felicidade mora com quem se permite sonhar e realizar. E sonhar de novo e realizar de novo. E isso dá calos. Para ser feliz é preciso correr riscos, sempre.
Muitos me perguntam o que aconteceu, por que fechamos. Parecia que estava indo bem, não parecia? Sim, estávamos com um volume já superior ao plano de negócios. Muito ainda precisava ser melhorado, mas estávamos no caminho certo, eu penso. E o que aconteceu? O que não aconteceu é o que contou: falta de capital, pura e simples.
No início, com a reforma quase finalizada, corremos o risco de comprar os equipamentos sem um financiamento contratado. Risco calculado: estava tudo encaminhado na Caixa Econômica Federal para o PROGER (financiamento com recursos do FAT para bens de capital), previamente aprovado para o restaurante, faltando apenas a liberação do recurso - segundo o gerente do banco. Compramos os equipamentos, com a promessa de que o dinheiro iria chegar. Passaram-se meses sem que os fornecedores vissem a cor dessa grana. O que a Caixa informava era que estava passando por uma auditoria nos financiamentos e por isso estavam demorando para liberar recursos. Assim, passados mais alguns meses sem resposta tivemos que fazer um acordo para o pagamento diretamente aos fornecedores. Em resumo, pagamos em 6 meses o que teríamos carência de 12 para desembolsar então em 48 parcelas.
Mas tem mais. Através da rede de contatos, consegui uma reunião com o Superintendente estadual da Caixa para os assuntos de financiamentos (não sei ao certo qual era o cargo dele). Fui muito bem recebido, mostrei o plano de negócios do restaurante e como estávamos até o momento, explicando o risco da falta de capital. Olhando nos meus olhos, ele disse "Vou deixar reservado para você". Tudo o que eu precisava era encaminhar (de novo) alguns documentos para o gerente de nossa conta - que ouvia a tudo do outro lado da linha, em conferência telefônica - para uma nova avaliação da empresa. Entreguei os documentos no dia seguinte: primeiro de Setembro de 2010. Hoje, quando escrevo essas linhas, tal avaliação ainda não foi feita. E esse tempinho, meu amigo, para uma pequena empresa, é a diferença entre o céu e o inferno.
Para não chegar a um nível complicado de endividamento, fechamos.
Aquele gerente não sabe onde é o restaurante, nem parte do cardápio. E aí fala mais alto meu sangue espanhol: não é um gerente de banco, mas um funcionário público burocrata sentadinho confortavelmente em sua cadeira. Esse é o apoio do governo.
    Mas avançar é assim: tinha uma pedra no meio do caminho? Tropeçar e cair faz parte. O pulo do gato é que levantar e continuar também faz parte. Os desafios doem. E a dor disfarça a verdadeira evolução: depois de uma queda, estamos preparados para um desafio ainda maior. Vamos sonhar de novo e realizar de novo.

5 comentários:

  1. Em todo e qualquer quintal ou jardim as ervas daninhas e o mato crescem; faz parte da natureza. Nosso trabalho é retirá-las e realizar as podas. Só assim um quintal e um jardim ficam belos. As pragas sempre aparecem, e temos que nos ver livre delas, sem ressentimentos. Nada como um quintal que ressurja... como no filme "O Jardim Secreto".
    um grande abraço!
    MLourenço

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  2. Edu,

    Já passei por uma situação frustrante de abrir (e fechar) uma empresa acreditando em um sonho.

    Mas fui muito ingênuo. Sonhador em excesso. Diria que você fez certinho. Elaborou um plano de negócios e tudo mais. Eu não fiz nada disso. Apenas fiz contas de quanto teria que receber para o negócio valer a pena. As contas fechavam. Mas o que eu não percebi é que oferecia um produto cujo diferencial as pessoas não se interessavam. Foi assim:

    Abri uma escola de música. Meu objetivo era oferecer um ensino com uma qualidade muito superior ao encontrado nas demais escolas que conheci. Só contratamos professores com, no mínimo, formação superior em música. Tinhamos várias feras conosco. Equipamentos e instrumentos de ponta. Um ambiente de tamanho adequado e boa estrutura física. Toda essa estrutura tem um custo. Cobrávamos cerca de 30% a mais que nossos concorrentes. Mas oferecíamos um produto, no mínimo, 200% melhor. Mas ninguém faz essa comparação. Só vêm que o concorrente é 30% mais barato.

    Resultado: depois de pouco mais de um ano e o valor equivalente a um apartamento investido, decidimos fechar.

    O que EU gostaria era de estudar num lugar como o que eu montei. Só que criei um negócio para muito poucos clientes. Se elevasse ainda mais o preço, a maioria deles sairia fora pois já estavam no limite do que julgavam ser justo pagar.

    Isso fazem uns dez anos. Até hoje não tentei de novo, mas talvez um dia ainda tente :-).

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  3. Edu,

    Sei exatamente o que você passou. O banco atrasou a liberação do dinheiro do meu projeto em 10 meses. Quase quebrei sem mesmo ter aberto, pois já havia contratado o aluguel e feito as reformas necessárias. Tenho trabalhado arduamente nestes últimos 6 anos para ver meu sonho realizado. Não desisto. Sou eternamente grato a todos os que acreditaram em mim, e aqueles que continuam a me prestigiar.
    pra terminar, gostaria de deixar registrado que você e seu Quintal foram, neste curto período, parceiros e colegas dos mais agradáveis e profissionais com que eu já trabalhei.
    Um grande abraço.
    Luciano

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  4. Velinho,
    Contra-pé total.
    Mas o mundo dá voltas e essas dificuldades nos fazem cada vez mais fortes.
    Obrigado por compartilhar essa experiência comigo também.
    Abraço e vamos falando e comemorando esse 2011 que chegou e certamente será "Ímpar" ... ahhhh vai dizê .... Monroe

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  5. Como você mesmo disse, ser racional é fundamental quando os sonhos são ameaçados. Assim é todo dia, quando acordamos e enfrentamos infinitas possibilidades e os resultados nem sempre são controlados por nós. Mas, cabe a nós reservarmos os "sonhos", não permitir que morram e, quando for possível, tornar real o que havia sonhado. Acredite. Persista. Você tudo pode.

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